Em SP, 70% dos ciclistas usam bicicleta para trabalhar
Atropelamento de Ciclistas em Porto Alegre
Um grupo de ciclistas que tradicionalmente percorre as ruas do bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, na última sexta-feira (25/02) de cada mês à noite, foi atropelado por volta das 19h. Segundo a Brigada Militar (BM), 100 ciclistas do movimento Massa Crítica seguiam pela rua José do Patrocínio, quando foram surpreendidos por um Golf preto na esquina com a rua Luiz Afonso. A maioria escapou do atropelamento, mas 10 ficaram feridos, sendo cinco com lesões, que foram encaminhados ao Hospital de Pronto Socorro.
Conforme um dos ciclistas, que se identificou apenas como Bruno, 21 anos, o motorista do Golf não respeitou a aglomeração e “tocou por cima”. “Saímos do Largo Zumbi dos Palmares, na Cidade Baixa, mas ele rompeu a barreira. Sempre que tem esse movimento, há uma organização, e ele não respeitou isso. Nós ainda dissemos ‘tem que esperar, vamos respeitar’, mas ele não gostou e uns 500 m depois atropelou quem pode”.
A polícia disse que o atropelamento foi intencional e que o motorista do Golf acelerou várias vezes antes de derrubar os ciclistas. Após ouvir testemunhas, os policiais conseguiram a placa do veículo e identificaram o proprietário como Ricardo José Neif, 47 anos.
Quatro viaturas da BM e cinco ambulâncias fizeram o atendimento dos feridos. A rua estava bloqueada e um grupo de ciclistas fez protesto exigindo segurança no trânsito. O movimento Massa Crítica, segundo o seu site, “é uma celebração da bicicleta como meio de transporte. Acontece quando dezenas, centenas ou milhares de ciclistas se reúnem para ocupar seu espaço nas ruas e criar um contraponto aos meios mais estabelecidos de transporte urbano. A Massa Crítica é organizada de forma horizontal, não tem representantes, porta-vozes, nem líderes. Ela não tem uma voz. Ela tem tantas vozes quanto participantes. Cada um é livre para levar a manifestação ou a reivindicação que quiser”.
Funcionário do Banco Central Ricardo Neis, se entregou e assumiu ter atropelado um grupo de ciclistas, em Porto Alegre (RS), afirmou nesta segunda-feira (28/02) que não teve “alternativa” a não ser avançar com o carro sobre os manifestantes da Massa Crítica. “Eles me agrediram. Eu tive que fazer isso”, afirmou, após depor por cerca de três horas e meia no Palácio da Polícia.
“Eu estava passando com meu filho ali e fui agredido pelos ciclistas. Estou tremendamente transtornado com tudo o que aconteceu. Lamento muito o que aconteceu com eles (ciclistas) todos, mas eu não tive outra alternativa. Eu estava sendo agredido, eles quebraram o retrovisor”, disse.
Alguns dos ciclistas vítimas de um atropelamento na última sexta-feira, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre (RS), foram à Divisão de Crimes de Trânsito, no Palácio da Polícia, para prestar depoimento na tarde desta segunda-feira. Na chegada, eles negaram a versão da defesa do motorista Ricardo Neis, 47 anos, que teria se sentido ameaçado pelos ciclistas após supostos golpes a seu carro. “Ele é um psicopata”, disse Marcos Rodrigues, 27 anos, um dos atropelados
Por volta das 11h50, Neis se apresentou à polícia para prestar depoimento. Ele entrou pelos fundos da divisão enquanto seu advogado, Luís Fernando Albino, falava com a imprensa. Ele ainda prestava esclarecimentos aos policiais quando o grupo de ciclistas chegou ao local. Sobre a possibilidade de ficar frente a frente com o suspeito, Rodrigues disse: “Não tenho nada para falar com ele. Quero que ele vá para a cadeia. A gente não fala a mesma língua”.
Rodrigues, que é ciclista mensageiro, disse que, no momento do atropelamento, ouviu o barulho das colisões e achou que era um pequeno acidente de trânsito. Quando olhou para trás, porém, viu o carro se aproximar em alta velocidade. Atingido, ele sofreu ferimentos na cabeça na queda e ficou inconsciente. O ciclista foi atendido no HPS e liberado por volta de 0h.
Bastante emocionado, o ciclista chorou ao cogitar um passeio com mais pessoas, como ocorre normalmente. “Graças a Deus a manifestação da última sexta foi menor que nos outros meses, que não tinha tanta criança, porque, se houvesse crianças, elas não seriam levantadas pelo carro, e sim ficariam embaixo do carro”, afirmou. “Não tem explicação. O que ele fez foi um ato hediondo”, disse, se referindo ao motorista como um “monstro”.
Aviso às autoridades sobre manifestação
Os ciclistas rebateram os argumentos da defesa de que a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) nem a Polícia Militar foram avisadas do evento. “Isso é uma piada, porque a gente faz essa manifestação todo mês e eles sabem disso. Isso é uma vergonha”, afirmou Rodrigues. Para ele, mesmo que o ato estivesse irregular, não serve como justificativa para a atitude do motorista.
“A gente fecha a via por questão de segurança. A gente não libera o trânsito em uma pista porque conhece os motoristas da nossa cidade”, afirmou, acrescentando que a chance de acontecer um acidente seria muito grande caso os ciclistas e os carros ficassem juntos. “A gente não pode pedir escolta para a EPTC toda vez que for de bicicleta ao trabalho”, disse. O ciclista afirmou que pretende processar o motorista, mas não sabe se o grupo entrará com uma ação coletiva.
Segundo integrantes do movimento, a Massa Crítica não pede escolta durante suas manifestações em outros lugares do mundo justamente para pregar o respeito aos ciclistas e o uso cotidiano das bicicletas.
Tapa no carro é para alertar, diz ciclista
Outra vítima que foi prestar depoimento foi a professora Aline de Morais Rodrigues, 41 anos. Ela confirmou que um jovem estava acompanhando o condutor. “Eu fui uma das pessoas que foram até o lado do carona para dizer ‘espera aí’ para o motorista”, afirmou. Ela, no entanto, negou que os ciclistas tenham batido no veículo. “Tapa no carro, se houve, é mais para alertar. É uma reação a uma agressão sofrida”, disse.
De acordo com o movimento, o condutor bateu em duas bicicletas na altura do Largo Zumbi dos Palmares, de onde os ciclistas saíram pela rua José do Patrocínio. Segundo testemunhas, o motorista parou o carro, esperou que o grupo se afastasse e “pegou distância” antes de acelerar e atingir os ciclistas.
“Me joguei no chão para o lado direito e só deu tempo de ver o carro passar a cerca de 1 m, 1,5 m de mim”, disse a professora, que participava do passeio com o filho de 22 anos. “Eu não sabia onde estava meu filho. Quando aconteceu (o atropelamento) eu entrei em choque. Eu fiquei desesperada porque não via meu filho”, disse.
O DJ Sérgio Costa, 34 anos, integra a Massa Crítica, mas não estava presente na manifestação da semana passada. Ele, porém, foi até o Palácio da Polícia nesta segunda para prestar solidariedade aos amigos que foram vítimas. Costa afirmou que o movimento tem a característica de ser pacífico e que espera que o condutor responda criminalmente pelo atropelamento.
Fonte : Terra
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